O modelo da cobertura por leis

David Papineau

1. Cobertura por leis

Tanto na ciência como na vida quotidiana, o objectivo da investigação é frequentemente o de encontrar uma explicação para um fenómeno intrigante. Mas o que é exactamente uma explicação? E como contribui o nosso conhecimento de verdades gerais para a nossa capacidade de explicar?

Grande parte do debate moderno sobre as explicações parte do "modelo da cobertura por leis" de Carl Hempel. Primeiro, gostava de ilustrar este modelo para o caso em que aquilo que se pretende explicar é um acontecimento específico, como o de que a água gelou nos canos na terça-feira ou o de que choveu esta manhã. Segundo Hempel, a explicação de qualquer um destes acontecimentos obedece ao seguinte esquema:

Condições Iniciais: I1, I2, ..., In.
Leis: L.
Acontecimento explicado: E.    

Deste modo, por exemplo, podemos explicar o facto E de que choveu esta manhã indicando as condições iniciais, I1 e I2, de que havia um certo nível de humidade e de que a pressão atmosférica desceu para um certo nível, e a lei, L, segundo a qual a uma tal descida de pressão quando há essa humidade segue-se sempre a precipitação de chuva.

A lei desta explicação "cobre" as condições iniciais e o acontecimento consequente, no sentido em que mostra que a sequência de acontecimentos que está por detrás de uma ocorrência específica é apenas um exemplo de um padrão geral. Ao facto que fica explicado, E, chama-se por vezes "explanandum", e aos factos que fazem a explicação, os Is e L chama-se "explanans". Note-se que, embora eu tenha representado a lei envolvida no explanans como uma única proposição, L, na maior parte dos casos precisamos de uma conjunção de leis mais simples para ver por que E se segue dos Is relevantes. Por exemplo, precisamos da segunda lei de Newton e da lei da gravitação para explicar por que um meteoro se move de certa maneira.

2. Dedução

Note-se também que, segundo este modelo de explicação, explicar um acontecimento é o mesmo que deduzi-lo a partir de condições iniciais e de leis. Dadas as condições iniciais e uma lei que diz que a tais condições iniciais segue-se sempre um E, por si só a lógica permite-nos inferir que o explanandum ocorre. Como envolvem dedução através de uma lei, tais explicações são conhecidas frequentemente por "nomológico-dedutivas" ou, abreviando, por explicações "N-D". (Há uma variante do modelo da cobertura por leis que admite leis probabilísticas em vez de leis deterministas, e que, por consequência, enfraquece a exigência de dedução. Deste modo, "cobertura por leis" é estritamente um termo mais amplo do que "nomológico-dedutivo". Mas por agora concentremo-nos nos casos dedutivos, e deixemos de lado as explicações probabilísticas.)

Vale a pena deixar claro que a ideia de explicação "dedutiva" não presume que a lei L pode de alguma maneira ser deduzida a priori a partir de primeiros princípios. Tais leis ainda têm que ser estabelecidas por indução a partir de observações de resultados feitas no passado. A ideia é simplesmente a de que, se já estabelecemos uma tal lei, então ela implicará dedutivamente, em conjunção com condições iniciais apropriadas, certos resultados adicionais.

3. Explicação e previsão

O modelo da cobertura por leis implica uma certa simetria entre explicação e previsão. A estrutura das explicações, nas quais deduzimos que E tinha que ocorrer a partir de condições iniciais e de leis, é exactamente paralela à estrutura das previsões, nas quais deduzidos que E irá ocorrer a partir das mesmas condições iniciais e leis. Por exemplo, se podemos explicar por que está a chover esta manhã através de condições anteriores e da lei relevante, presumivelmente poderíamos ter previsto que ia chover a partir da mesma informação. Deste modo, para o modelo da cobertura por leis a diferença entre explicação e previsão depende apenas de conhecermos ou não o explanandum antes de o deduzirmos a partir do explanans. Se já conheces E, então deduzi-lo a partir de condições iniciais e de leis servirá para explicá-lo. Se ainda não conheces E, então a mesma dedução servirá para prevê-lo. Uma previsão diz-te o que deves esperar. Uma explicação mostra-te que aquilo que já sabes seria de esperar que acontecesse.

David Papineau
"Methodology" em A. C. Grayling (org.), Philosophy: A Guide Through the Subject, Oxford University Press, 1998
Tradução de Pedro Galvão