A. C. Grayling

A fé é a negação da razão. A razão é a faculdade de ajustar o julgamento à informação, depois de a pesar. A fé é acreditar mesmo mediante informação contrária. Søren Kierkegaard definiu a fé como o salto dado apesar de tudo, apesar do puro absurdo daquilo em que se pede que acreditemos. Quando as pessoas conseguem teimosamente escolher acreditar que o preto é branco, e são capazes, na sua certeza absoluta, de ir ao ponto de matar quem com elas não concordar, não há muita hipótese de discussão. "A Fé, a Fé fanática, uma vez aferrando-se a uma qualquer falsidade, abraça-a até à morte", diz Thomas Moore em "Veiled Prophet of Khorassan".

No ramo da filosofia denominado "epistemologia" — a teoria do conhecimento —, o conhecimento é definido como a crença simultaneamente verdadeira e justificada. Uma das teorias mais aceites descreve o conhecimento como uma relação existente entre um estado da mente e um facto. O conteúdo do estado mental consiste num juízo feito responsavelmente, e o facto é (por exemplo) uma disposição do mundo que, quando o juízo é verdadeiro, é o que o faz ser assim. A crença difere do conhecimento na medida em que, ao passo que o último é verificado pelos factos e depende da existência do tipo certo de relação entre a mente e o mundo, a primeira existe completamente e apenas na mente, não se baseando em nada do que existe no mundo. Em suma, é possível acreditar em qualquer coisa: que as galinhas têm dentes, que a relva é azul, e que as pessoas que não acreditam em nada disto são malévolas. É isto que torna tão sinistra a observação de Santo Agostinho: "a fé consiste em acreditar no que não se vê; a recompensa da fé consiste em ver aquilo em que se acredita" — se se consegue acreditar em tudo, consegue "ver-se" tudo — e, por conseguinte, é possível sentir-se no direito de fazer o que quer que seja: viver como um patriarca do Antigo Testamento, o que é idiota, ou mesmo matar outro ser humano, o que é vil.

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Espantosamente, alguns cientistas são crentes, afirmando frequentemente que o melhor argumento que conseguem apresentar para terem crenças religiosas é o chamado "argumento da melhor explicação", o qual, neste caso, diz que, dado o nosso estado de conhecimento ser inconclusivo, a melhor descrição que conseguimos dar do mundo é a de que existe um Deus.

Este argumento é reconhecidamente fraco. Há duas reflexões que nos dizem porquê. Uma delas é que está muito longe de ser claro que o teísmo constitua a melhor explicação para a existência e natureza do mundo, especialmente porque, ao referir a existência e actividade de uma divindade para responder a questões acerca da razão por que existe um mundo e da forma como ele se originou, se limita a deslocar o problema, fazendo-o retroceder um passo — até às questões acerca da razão por que existe uma divindade e da forma como ela se originou. Em segundo lugar, há o simples facto de, mesmo que — improvavelmente — o apelo à existência de uma divindade constituísse a melhor explicação que a inteligência humana conseguisse inventar, o facto é que aquilo que parece ser a melhor explicação, em relação a qualquer assunto, pode estar errado. Estes argumentos são intrinsecamente fracos — equivalem a dizer: "Isto é o melhor que podemos fazer para explicar tal coisa, no nosso actual estado de ignorância". E na ignorância é que bate o ponto: os deuses habitam invariavelmente o reino sombrio da ignorância, para lá da fronteira do conhecimento, uma fronteira que recua à nossa frente — levando consigo a sua bagagem sobrenatural — à medida que a investigação avança.

Poder-se-ia pensar que a ciência tinha posto em fuga as antigas superstições. No século XIX travou-se uma batalha encarniçada acerca desta questão, a respeito do cristianismo: a sua história é complicada, mas as missões religiosas — não apenas em África e no Extremo Oriente, mas também nos bairros pobres de Londres e Nova Iorque, sempre convertendo os ignorantes e analfabetos que não tinham ouvido falar da ciência — salvaram as igrejas e estabeleceram a base de muitas denominações fundamentalistas prevalecentes no mundo actual entre os povos outrora colonizados pelas potências europeias.

Os defensores da religião falam muito em beleza e bondade, carácter pessoal e experiência subjectiva. Na verdade, são estas as coisas mais importantes. Mas esses defensores cometem o erro habitual — e muitas vezes fazem-no deliberadamente — de aliar estes aspectos elevados e bons da experiência humana a tudo o que seja sobrenatural. O nosso sentido de beleza, a decência, a nossa capacidade de amar, a nossa criatividade — todas as melhores coisas que possuímos — pertencem-nos, pertencem à experiência humana no mundo real. Não precisam, nem colhem benefício, de uma qualquer alegada ligação com forças sobrenaturais de um ou outro tipo. São nossas, tal como o mal, a estupidez, a ganância e a crueldade a que se opõem. Na verdade, por que não dizem os defensores da religião que estas coisas más vêm dos deuses e as boas vêm do Homem, ao invés — como sempre afirmam — do oposto?

A. C. Grayling
Tradução de Fátima St. Aubyn
O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2003, pp. 143-151