O facto feliz acerca dos milagres é não requererem qualquer sustentação sob a forma de informação ou avaliação racional. Na verdade, saem-se muito melhor sem estes. Mark Twain ilustra este aspecto referindo como um curioso perguntou a um célebre professor se as notícias recentemente vindas a lume (estava-se então em 1909) sobre a descoberta do Pólo Norte pelo Dr. Frederick Cook eram verdadeiras. Respondeu o professor: "A resposta, sim ou não, depende inteiramente da resposta a esta questão: "Diz-se que o feito do Dr. Cook é um Facto, ou um Milagre?" Se for um Milagre, qualquer tipo de informação servirá, mas, a ser um Facto, é necessária prova". "É essa a regra?", tornou o curioso. "Sim", respondeu o professor, "e é absoluta. Não são permitidas alterações. Foi citada uma observação muito pertinente, da Westminster Gazette, que diz que "o jogador de golfe, ao atingir um recorde numa série, tem de apresentar o seu cartão assinado; ora, não havia lá ninguém que assinasse o cartão do Dr. Cook — há dois esquimós que atestam o seu feito, é certo, mas são os seus próprios apanha-bolas e, no golfe, os seus testemunhos não seriam tidos em consideração". Aqui tem o caso. Se o feito do Dr. Cook for apresentado como Facto, a prova avançada pelos dois apanha-bolas não serve; se for apresentado como Milagre, o testemunho de um só apanha-bolas chega e sobra".
Os milagres são normalmente descritos como revogações sobrenaturais das leis da natureza. Alguns crentes afirmam que não se trata de revogações das leis da natureza: só assim parecem à humanidade ignorante. De qualquer forma, são acontecimentos extremamente invulgares. É óbvio que o conceito de milagre é muito útil, pois pode ser invocado para explicar o que quer que seja. Mas é exactamente aí que também reside a sua fraqueza. Como David Hume observou, quando se pesa as informações que sustentam o funcionamento normal das leis da natureza e as informações que sustentam as reivindicações de que houve uma única violação destas, as primeiras revelam um peso tão superior às segundas que tornam estas últimas nulas. E acrescenta que é muito mais provável uma pessoa que afirma ter testemunhado um milagre estar enganada, ou delirante, ou a mentir, do que as leis da natureza em questão terem, de facto, sido abolidas temporariamente para quaisquer fins específicos.
Há outro sentido melhor de "milagre", coloquial, que é aplicado àquilo que de melhor existe na natureza e na natureza humana. Não são necessários deuses para os explicar e a única fé exigida é na própria capacidade do mundo para praticar o bem — capacidade que, na sua diversidade e dimensão, é ela própria milagrosa.
A. C. Grayling
Tradução de Fátima St. Aubyn
O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2003, pp. 152-153